Ilustração de diversas camadas de código cobertas por uma cortina se abrindo com um símbolo de acessibilidade. A ilustração é toda em tons azuis e com representações de pessoas em segundo plano.
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Acessibilidade invisível e a promoção de interfaces sem barreiras

Sempre defendi a acessibilidade digital invisível, aquela que é tão bem aplicada em um código semântico que não há um ícone ou uma página informando ao usuário sobre os recursos da aplicação. Porém, acho que a acessibilidade digital está em um momento especial, em que as iniciativas que destacam um site sem barreiras de acesso precisam de visibilidade.

Considero que tivemos avanços importantes em 2025 para a acessibilidade. Tivemos no início do ano a publicação da norma ABNT 17225, sobre acessibilidade na Web, a tradução autorizada das mais atuais diretrizes internacionais para acessibilidade (que foram base para a norma) e a aprovação dessas mesmas diretrizes como uma norma internacional ISO, além de uma série de capacitações promovidas pelo Ceweb.br. Não foi um ano ruim para a acessibilidade. Esperamos que em breve essa norma seja adotada como parâmetro para a acessibilidade de sites brasileiros, como já vem cobrando o MPF.

Dar visibilidade a acessibilidade é fundamental porque ainda não temos o costume (ou a obrigação legal) de publicar uma declaração de acessibilidade em nossos sites. Isso já acontece em diversos países, como Austrália, Estados Unidos, União Europeia, dentre outros. Algumas instituições brasileiras já adotam essa prática por iniciativa própria, seja por diretrizes de suas matrizes internacionais ou por compromisso com a eliminação de barreiras. Aquelas que ainda não o fazem deveriam considerar a implementação, visto que as normativas nacionais estão se alinhando ao cenário internacional e isso tende a se tornar uma exigência em breve. É essencial ter uma página estruturada que informe ao usuário sobre os recursos de acessibilidade do site e como eles foram implementados.

Colocar links para aumentar e diminuir fonte ou melhorar contraste não é uma forma adequada de declarar a acessibilidade. Ter uma série de ferramentas e plug-ins também não. Isso significa que ter um código semântico e totalmente acessível também não é o suficiente. Precisamos declarar formalmente as diretrizes aplicadas para demonstrar nosso compromisso com a inclusão e dar visibilidade ao tema. Para ilustrar a importância dessa visibilidade, utilizarei o exemplo das redes sociais.

#pracegover

As principais redes sociais que permitem a publicação de fotos têm campos para preenchimento de texto alternativo, que é utilizado por tecnologias assistivas para descrever a imagem. Esse conteúdo não fica visível para todos os usuários e está disponível apenas para leitores de tela. Teoricamente, não seria necessário descrever a imagem no corpo da publicação, mas muitos ainda utilizam as hashtags #PraCegoVer ou #ParaTodosVerem. E isso é excelente.

Esse tipo de descrição apresenta a acessibilidade a quem ainda não está familiarizado com a pauta. Um leitor de jornal online que encontra a descrição da foto no post é convidado a refletir sobre o recurso e pode começar a se engajar com a causa. Perdi a conta de quantas vezes ouvi de pessoas que nunca tiveram contato com a acessibilidade digital que algum post ou comentário meu as fez se interessar no tema (mesmo que não seja sua área de atuação).

Essa prática estimula o usuário a replicar o cuidado em suas próprias fotos, o que já é um grande passo. O caminho entre essa ação e começar a legendar vídeos ou promover uma inclusão mais ampla é promissor. E dá pouquíssimo trabalho adicionar uma breve descrição logo após a legenda da foto.

Embora não existam registros exatos do quanto essa iniciativa ampliou a acessibilidade das postagens, a popularidade das hashtags é um forte indicador. Uma busca por esses termos revela publicações recentes, provando a longevidade de uma iniciativa que nasceu em 2012.

Trazendo essa lógica para os sites que desenvolvemos, precisamos ir além para dar a visibilidade necessária à causa. Não basta inserir botões de contraste ou ícones genéricos. É fundamental reservar um espaço de fácil acesso, a partir da página inicial, para a Declaração de Acessibilidade. Nela, devem constar todos os testes e cuidados realizados para garantir a navegação. Para entender o que deve existir nessa declaração, recomendo fortemente assistir ao vídeo da Claudia Nascimento na oficina sobre a Norma ABNT 17227 de agosto de 2025.

A visibilidade da acessibilidade é importante para todos:

  • Para a pessoa com deficiência, que encontra informações sobre os cuidados tomados para evitar barreiras na sua navegação;
  • Para a empresa, que mostra que está cumprindo a lei seguindo boas práticas internacionalmente adotadas;
  • Para desenvolvedores, que tem uma documentação detalhada sobre o que está contemplado no site;
  • Para os usuários sem deficiência, que serão expostos a realidade de uma Web que deve ser efetivamente acessível e inclusiva.

Ainda defendo a acessibilidade invisível, do código bem desenvolvido e semântico. Porém, precisamos mostrar para a sociedade que esse trabalho foi feito, seja para apresentar para uma auditoria ou para declarar o cuidado e a preocupação com uma Web efetivamente para todos.

Já passou da hora de tratarmos a promoção da acessibilidade digital como algo natural e indispensável. Todos têm responsabilidade nesse processo e podem contribuir de alguma forma, seja ao produzir conteúdo em redes sociais ou projetar e desenvolver aplicações robustas. Promover acessibilidade é ampliar o acesso, reduzir barreiras e garantir que mais pessoas possam participar plenamente do ambiente digital.