Foto tirada do alto de uma mesa de madeira com um notebook aberto sobre ele. Duas mãos aparecem digitando. Do lado direito da imagem há uma xícara de café.
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Escrever é um ato de resistência

Eu adoro escrever. Estou terminando mais um livro sobre Acessibilidade Digital e tenho alguns rascunhos de histórias de ficção que já passam de cem páginas, que espero um dia conseguir publicar. Muito do que escrevo é aberto, como o conteúdo do meu blog, palestras ou artigos para parceiros. Outros não, como os livros que publiquei nas editoras Senac e Casa do Código.

Mas esse texto é diferente. Não vou falar sobre dicas de código ou sobre novidades da acessibilidade. Quero falar sobre o hábito de escrever.

O exercício da escrita exige uma série de habilidades essenciais para o ser humano. Começa pela organização de ideias até a construção compreensível de um conteúdo. Escrever também exige exercitar a leitura, já que boa parte do meu conteúdo vem de estudos de textos de terceiros. E ter um bom repertório é ótimo para exercitar a escrita.

Claro que já me questionei sobre o uso de IA para escrever meus textos. Já usei principalmente para revisar o conteúdo, mas ainda evito produzir a partir de um prompt. Fiz alguns experimentos para vídeos curtos, pedindo para IA criar um roteiro seguindo o estilo dos meus vídeos. O resultado foi um texto com cara de ChatGPT que abandonei nos meus rascunhos. Hoje é possível perceber essa pasteurização em certos vídeos em redes sociais.

É inevitável usar IA para nos ajudar na criação de conteúdo. Cada dia que passa estamos delegando cada vez mais as atividades cotidianas para as máquinas. Na maioria das vezes são tarefas repetitivas ou que precisamos agilizar o processo. Não dá para ignorar uma tecnologia tão poderosa que domina a rede.

Mas com os benefícios vem os desafios.

Em dezembro de 2025 um estudo apontou que mais de 50% do conteúdo em texto na Web é feito por IA. E a tendência é aumentar. Já temos conteúdo criado por IA que é baseado em outro conteúdo por IA e assim por diante. Ela também está nos artigos científicos. Outra pesquisa aponta que um em cada sete artigos possui influência de IA na sua concepção.

O grande avanço da inteligência artificial me fez refletir sobre como estamos delegando cada vez mais responsabilidade para as máquinas. Consequentemente, isso traz desafios. Esse artigo da Carta Capital coloca um pouco mais de amargor nessa história.

Existe um risco de nos tornarmos dependentes demais da IA para executar tarefas simples, como escrever, ler ou até interpretar um texto. Ai entra o trecho do artigo que me acendeu um alerta:

Não se trata de vender IA como assistente para elevar capacidades humanas, mas de atrofiar nossas capacidades básicas para que elas passem a ser performadas por máquinas e vendidas de volta para nós como serviços básicos (e ruins).

Letícia Cesarino – Carta Capital

Tornar tudo tão fácil a ponto dos humanos perderem a habilidade de escrever para vender essa facilidade me parece mesquinho. Em vez de estimular o desenvolvimento cognitivo humano, parece que há um movimento para nos deixar mais burros.

Exercitar a escrita ajuda a manter o cérebro ativo. Não quero demonizar o avanço tecnológico. Temos ótimas ferramentas que vão facilitar o nosso dia a dia. Uma ferramenta de tradução simultânea, por exemplo, é essencial, mas aprender um novo idioma ajuda na manutenção das sinapses. Saímos da máquina de escrever para os computadores, depois para os smartphones e para o mundo dos wearables. Estamos mudando nossa forma de interagir com o mundo. Da mesma forma que fazemos exercícios físicos para cuidar do corpo, precisamos exercitar a mente com mais frequência. Em um mundo cercado por vídeos curtos por todas as partes, ler se torna uma musculação importante para a mente. E a escrita vira uma prancha abdominal.

Sei que os meus textos farão parte da base de dados de IA, que vão pegar esse conteúdo e misturar com outros. Mas pelo menos estou consciente de que ainda são conteúdos produzidos por um humano. Ter um blog parece nostalgia, mas sei que não estou sozinho. Ainda tem muita gente boa que escreve conteúdo relevante, mesmo sabendo que seus textos serão exibidos por uma IA sem contar uma “page view“. Faz parte do jogo.

Por isso faço outra provocação: Publique conteúdo aberto. Além do que está nas redes sociais muradas, escreva em alguma plataforma aberta para todos. Além da discussão sobre a importância de escrever, tem outra questão que impacta o conteúdo que publicamos online. Um dia talvez não tenhamos as redes sociais como conhecemos hoje e será uma pena perder todo esse conteúdo produzido pela humanidade, mesmo os conteúdos mais efêmeros. Pareço muito pessimista? Lembre-se que já perdemos tudo o que estava no Orkut em 2014. Em 2013 eu já escrevi sobre isso e o questionamento permanece: Será que o material produzido hoje estará aberto e será encontrável? Esse é outro problema para discutirmos em outro post.

Continuemos aprendendo a usar IA para melhorar nossos textos, mas precisamos nos manter no controle. Usar com sabedoria é bom para todo mundo.

Esse texto não está perfeito e essa é a graça do conteúdo produzido por humanos.

Sejamos resistência! Continuemos escrevendo!