Ilustração de uma pessoa no topo de uma montanha olhando o por do sol no horizonte. Ao lado do sol estão as letras WCAG 3 flutuando.
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O que vem por ai com WCAG 3

Em 2021 dei uma palestra com uma breve análise do conteúdo do documento WCAG 3. Era uma das primeiras versões do documento e muita coisa já mudou de lá para cá. Então, nada mais justo do que escrever um novo artigo sobre o atual status do documento.

Essa nova versão das diretrizes tem como objetivo ser de fácil compreensão e indo além da documentação WCAG, abordando testes de usabilidade e com usuários. Apesar de parecer bem diferente das versões anteriores, sua estrutura contempla os requisitos das versões anteriores e novas orientações de acessibilidade.

O que vou descrever aqui está baseado no Working Draft de Março de 2026. Isso significa que esse documento ainda deve sofrer alterações até chegar finalmente a uma recomendação do W3C (e isso deve levar tempo). Por isso o W3C adicionou rótulos em praticamente todo o documento para apresentar o status de cada área. São elas:

  • Placeholder: Este conteúdo é temporário. Espera-se que todo esse conteúdo seja substituído.
  • Exploratory: Este conteúdo ainda não foi refinado. Detalhes e definições podem estar faltando.
  • Developing: Detalhes foram adicionados, mas ainda precisam ser desenvolvidos.
  • Refining: Este conteúdo está pronto para ampla revisão pública e adoção experimental.
  • Mature: O grupo de trabalho considera que este conteúdo está pronto para fazer parte da recomendação.

A revisão desse documento contou com algumas traduções de termos e análises de orientações. Toda tradução feita nesse documento foi feita de forma livre.

Requisitos e níveis de conformidade

Atualmente o documento conta com 12 grupos de 45 diretrizes. Cada uma delas contém Requisitos Essenciais (core requirements) e Requisitos Suplementares (supplemental requirements), definidos da seguinte forma:

Requisitos essenciais — Requisitos que devem ser atendidos para estar em conformidade. Eles incluem requisitos que garantem que:

  • o conteúdo é detectável por agentes de usuário e tecnologias assistivas (TA),
  • o conteúdo é transmitido por múltiplos sentidos e pode ser utilizado por múltiplos meios de entrada,
  • o conteúdo não causa danos físicos imediatos, e
  • o suporte necessário está disponível, como legendas, alternativas textuais e formas expandidas de abreviações.

Requisitos suplementares — Requisitos que complementam o conjunto essencial. Eles incluem:

  • verificações de qualidade,
  • níveis mais rigorosos ou elevados do que os de um requisito essencial comparável,
  • requisitos que atualmente são mais difíceis ou caros de implementar, e
  • requisitos que podem se aplicar em determinadas situações.

Isso significa que não teremos mais os níveis de conformidade A, AA e AAA. Eles foram substituídos pela classificação Bronze, Prata e Ouro a partir da conformidade com as necessidades funcionais dos usuários.

  • Bronze: nível mínimo. Deve cumprir todos os requisitos essenciais + uma parte dos suplementares.
  • Prata: cumpre todos os essenciais + uma parte maior dos suplementares que o nível Bronze.
  • Ouro: cumpre todos os essenciais + uma parte ainda maior dos suplementares que o nível Prata.

Diretrizes

Cada diretriz contida em um grupo tem um título, número, descrição e uma lista de requisitos. Todos eles com seus devidos rótulos conforme seu nível de maturidade no documento.

Em cada requisito há um botão expansível com os procedimentos para testes de cada requisito e os resultados esperados de cada um deles, como o exemplo a seguir:

2.1 Imagens e mídia — Em desenvolvimento

Diretriz 2.1.1 — Alternativas para imagens
Os usuários têm alternativas equivalentes para as imagens.

Requisito essencial: Imagens detectáveis — Em desenvolvimento
Imagens não decorativas são detectáveis.

Aplica-se quando

  • o conteúdo inclui imagens não decorativas.

Testes
Esta seção é não normativa.

Procedimento

Para cada imagem não decorativa:

  1. Verifique o código para determinar se ela foi marcada de uma forma que a torne detectável; ou
  2. Para tecnologias nas quais o código não pode ser verificado, use um leitor de tela para testar se a imagem é detectável.

Resultados esperados

  • A condição #1 ou #2 é verdadeira.

Cada requisito tem um link para uma parte do repositório no github para apresentar toda a discussão e desenvolvimento do requisito.

Não dá para explicar aqui todo o documento, mas acho que vale a pena fazer um breve resumo sobre cada grupo de diretrizes e as mais novas e interessantes:

2.1 Imagens e mídia

Grupo de diretrizes para conteúdo audiovisual, como imagens, vídeo e som.

2.1.1 — Alternativas para imagens

Concentra as orientações para imagens, como garantir que imagens não decorativas sejam detectadas pelo usuário ou tecnologia assistiva e que imagens decorativas devem estar escondidas. Também fala sobre alternativas para a imagem, como o uso de equivalentes em texto.

2.1.2 — Alternativas para mídia

Além dos que já conhecemos como transcrição e mídia alternativa disponível, também estão presentes requisitos como Identificação de quem está falando, identificação do idioma de quem está falando, player de vídeo acessível selecionado dentre outros.

2.1.3 — Alternativas para conteúdo não textual

Há apenas um requisito (por enquanto) relacionado a garantir que conteúdo não textual tenha um texto alternativo equivalente.

2.1.4 — Legendas

Além das que já existiam no documento WCAG 2.2, foram adicionados requisitos para legendas em ambientes imersivos e orientações para o controle das legendas.

2.1.5 — Audiodescrições

Além dos anteriores, foi adicionado um novo requisito para audiodescrição, que é a possibilidade do ajuste do idioma da audiodescrição quando disponível.

2.1.6 — Legendas de figuras

Ainda não existem requisitos

2.1.7 — Sentido único

Diretriz nova, orientando que o conteúdo não deve depender apenas de um sentido do usuário. Agrupa requisitos de matiz, contraste, profundidade visual e áudio espacial.

2.2 Texto e redação

Grupo de orientações para a publicação de conteúdo em texto.

2.2.1 — Aparência do texto

Agrupa os ajustes e customização de textos pelo usuário, como a possibilidade de aumento do tamanho da fonte, cor e que esses ajustes possam ser reutilizáveis pelo usuário.

2.2.2 — Conversão de texto em fala (text-to-speech)

Garante que o texto está acessível para o usuário, como permitir que o texto e o idioma sejam detectáveis. Um novo requisito sobre metadados numéricos garante informações numéricas sejam apresentadas de forma acessíveis ao usuário.

2.2.3 — Linguagem clara

Orientações para escrita de texto simples. Contempla abreviações, explicação de linguagem não literal e a não inclusão de palavras desnecessárias.

2.3 Componentes interativos

Trata de diretrizes específicas para componentes de interação, como teclado e ponteiro.

2.3.1 Aparência do foco do teclado

Orientações referentes a percepção visual de foco de teclado, como tamanho e contraste do foco.

2.3.2Aparência do foco do ponteiro

Além do foco por teclado, o foco do ponteiro deve ser perceptível, especialmente quando envolver a ativação de um componente.

2.3.3Navegação pelo conteúdo

Usuários devem ser capazes de navegar pelo conteúdo, então sua ordem de foco deve ser adequada.

2.3.4Comportamento esperado

O comportamento dos componentes deve ser previsível ao usuário, oferecendo interações consistentes e padrões convencionais.

2.3.5Informações dos controles

Os controles de componentes interativos devem ser perceptíveis ao usuário com bom contraste, nomes e rótulos definidos e relacionados.

2.4 Entrada / operação

Orientações para tornar acessível a entrada de dados do usuário, como campos de formulário, e tornar mais fácil a operação da interface.

2.4.1 – Entrada pela interface de teclado

Reúne as orientações de acessibilidade por teclado já conhecidas e adiciona outras, como documentação de teclas customizadas, evitar conflitos de teclado, garantir a navegação por teclado mesmo no responsivo e controle do foco.

2.4.2 – Esforço físico ou cognitivo ao utilizar o teclado

Serve para reduzir o esforço do usuário ao navegar por teclado. Existem orientações sobre descrição de teclas de navegação, evitar links repetitivos e esforço compatível com as exigências de interface.

2.4.3 – Entrada por ponteiro

Orienta para o uso acessível do ponteiro, como o mouse ou toque na tela. Contém as orientações de controle do ponteiro, como permitir o cancelamento, mas também adiciona requisitos relacionados a não depender de ações que exigem pressão específica ou velocidade do ponteiro.

2.4.4 – Entrada por fala e voz

Nova diretriz para controles por entrada de voz. Orienta que a interface não deve depender apenas de controles de voz e permitir uma opção em texto durante a comunicação. Muito importante, já que usamos assistentes pessoais controlados por voz e que muitas vezes respondem em áudio.

2.4.5 – Operação de entrada

Oferecer opções para a entrada de dados, como o preenchimento de campos de formulário e interação do usuário. Existem orientações sobre o foco, passar o mouse e movimentos de gesto mas foram adicionadas novas, como não ter funcionalidades que dependam exclusivamente de movimentos do corpo ou posicionamento dos olhos.

2.4.6 – Autenticação

Traz orientações para que a aplicação não dependa exclusivamente de biometria e identificação de voz para a autenticação do usuário.

2.5 Tratamento de erros

Orientações para facilitar a percepção e a correção de erros pelo usuário.

2.5.1 – Corrigir erros

Diversas orientações sobre como ajudar o usuário a corrigir erros. Tem orientações sobre notificação de erros, sugestões, outras formas de indicar erros, mensagens persistentes dentre outras.

2.5.2 – Prevenir erros

Aqui estão orientações para prevenir que o usuário cometa erros, como requisitos para prevenção de erros, identificação de status de submissão, validação de dados e revisão antes de submeter um formulário.

2.6 Animação e movimento

Aqui estão os requisitos para evitar que conteúdo em movimento cause desconforto para os usuários e atrapalhem seu uso.

2.6.1 – Evitar danos físicos

Além das diretrizes da documentação anterior sobre conteúdo que pisca, existem orientações sobre estimulação háptica, ajuste de áudio e revisão do tipo de conteúdo (não só conteúdo que pisca, mas conteúdo violento também é listado).

2.7 Layout

Orientações específicas para o desenvolvimento de layouts acessíveis e com estrutura semântica disponível para recursos de tecnologia assistiva.

2.7.1 – Layouts reconhecíveis

Orientação para garantir que os layouts utilizados são acessíveis, que seguem um padrão convencional acessível ou que uma revisão da sua acessibilidade foi feita.

2.7.2 – Orientação do usuário

Agrupa os requisitos que permitem a localização do usuário em uma página ou aplicação. Aqui estão as orientações sobre título da página e novos requisitos, como listar todos os passos de uma ação de múltiplas etapas e a possibilidade de retornar ao início do processo.

2.7.3 – Estrutura

Garantir que a estrutura permita a navegação e a compreensão do usuário. Aqui estão as orientações sobre relacionamento de elementos, blocos de conteúdo, cabeçalhos e sessões definidas programaticamente.

2.7.4 – Sem obstrução

Orienta para tornar acessível conteúdo que aparece e cobre outro conteúdo, permitindo que o usuário consiga desobstruir o conteúdo coberto.

2.8 Consistência entre visualizações

Orientações para manter a consistência visual, estrutural e de navegação.

2.8.1 – Consistência

Agrupa as orientações para garantir a consistência estrutural e de navegação, reduzindo a carga cognitiva do usuário ao navegar por múltiplas páginas ou processos.

2.9 Processo e conclusão de tarefas

Orientações para facilitar o processo e conclusão de tarefas pelos usuários.

2.9.1 – Evitar tarefas cognitivas excludentes

Certas tarefas podem ser difíceis de serem executadas pela carga cognitiva, como memorizar dados por exemplo. Por isso permitir entradas automatizadas e alternativas para testes cognitivos são importantes.

2.9.2 – Tempo adequado

Agrupa as orientações relacionadas a limites de tempo, como dar tempo suficiente para o usuário executar tarefas ou não ter esse tipo de limite.

2.9.3 – Evitar enganos

Essas orientações estão relacionadas a testes de usabilidade conduzidos a fim de mitigar enganos dos usuários no uso da aplicação.

2.9.4 – Reter informações

Em formulários de múltiplas entradas, permitir que o usuário volte algumas etapas e que dados já preenchidos sejam exibidos ou possam ser selecionados pelo usuário, além de permitir salvar o progresso.

2.9.5 – Concluir tarefas

Orientações para facilitar a conclusão de tarefas, como informações obrigatórias claramente indicadas e disponíveis antes de iniciar a tarefa além de instruções sobre o processo disponíveis.

2.9.6 – Etapas desnecessárias

Fazer a revisão de processos de múltiplas etapas a fim de identificar e evitar etapas desnecessárias.

2.10 Política e proteção

Novas orientações para proteger o usuário durante a navegação e uso de uma aplicação web.

2.10.1 – Risco

Os riscos e as consequências de escolhas no uso da aplicação devem ser acompanhadas de uma descrição antes do usuário finalizar a ação, como a assinatura de um documento, por exemplo.

2.10.2 – Algoritmos

Há também requisitos sobre cuidados com algoritmos caso ele venha a trazer problemas para usuários com deficiência.

2.11 Ajuda e feedback

Orientações para oferecer ajuda ao usuário durante o uso de uma aplicação.

2.11.1 – Ajuda disponível

Além das orientações existentes sobre ajuda, explicações sobre botões desabilitados e uma revisão dos processos de decisão da aplicação também foram adicionados a esse documento.

2.11.2 – Feedback

Oferecer um mecanismo de feedback do usuário.

2.12 Controle do usuário

Garantir que o usuário consiga controlar a interface e componentes da aplicação, mesmo com tecnologia assistiva.

2.12.1 – Controle da tecnologia assistiva

Permitir o acesso e controle da aplicação por meio de tecnologia assistiva, oferecendo possibilidade de configurações e ajuste de notificações.

2.12.2 – Controle de texto

Não existem ainda requisitos de controle de texto.

2.12.3 – Área de visualização ajustável

São orientações vindas da versão anterior, como não bloquear a orientação do dispositivo, reorganização de texto e layout.

2.12.4 – Controle de mídia

Orientações específicas para permitir que o usuário controle mídia e mídia alternativa, como ajuste de áudio e busca por mídia alternativa.

2.12.5 – Alterações de conteúdo

Orientações para informar ao usuário sobre conteúdo que mudou, como notificações de mudança, de foco ou mesmo de agente de usuário.

Conclusão

Apesar de ter evoluído bastante, ainda não há previsão para que esse documento se torne uma recomendação do W3C. Por ainda estar em status “Working Draft”, muita coisa ainda pode mudar, entrar ou sair desse documento.

O que me chama a atenção nesse documento é que a parte técnica está muito bem contemplada se baseando pelas documentações anteriores do WCAG. O documento contempla questões importantes da atualidade, como algoritmos e interfaces hápticas. Outras novidades que aparecem na maioria das vezes são testes de usabilidade para deixar a aplicação melhor para todos.

Também achei a organização do documento muito melhor, com foco em necessidades funcionais dos usuários. Algo que já foi introduzido na norma ABNT 17225 de acessibilidade na Web.

Mesmo considerando que são diretrizes que não tem previsão para se tornarem uma recomendação do W3C, é importante conhecer essas boas práticas que em sua maioria já podem ser adicionadas as nossas aplicações Web. Ampliar o escopo da acessibilidade é bom para todo mundo.